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GIBIZANDO SOBRE A NONA ARTE

GIBIZANDO SOBRE A NONA ARTE

Contar histórias através de desenhos sequenciais com texto popular, foi um modo como alguns escritores se destacaram dos seus colegas conservadores e que a imprensa adotou como meio de aumentar vendas, seja por jornais, livros ou revistas. Esse modo de literatura criado no começo do século XX e tão combatido na primeira metade do século passado virou arte, sendo aceita tanto quanto a fotografia e o cinema.

Conhecida como comics nos Estados Unidos, bandes-dessinées na França, banda desenhada em Portugal, mangás no Japão e histórias em quadrinhos e gibis no Brasil, essa arte é estudada por sociólogos, pesquisadores e críticos desde a década de 40, quando a perseguição às tiras de jornais e revistas especializadas da época começou. Por que ela fascina tanto desde crianças a adultos? Por que mesmo sabendo que 99% das suas histórias é ficção, fica-se torcendo por determinado personagem e se a história for em série, provoca até ansiedade pelo final nos leitores? Em artigo anterior, falamos sobre a perseguição por parte de políticos e religiosos contra os gibis desde o começo da década de 40 até os anos 80, quando foi imposto um infame código de ética aos quadrinhos. Hoje estamos ficando livres de censura, mas aqueles que nos precederam, tiveram que esconder suas revistas dos pais, com medo deles queimarem achando que era coisa maldita e que ensinava as crianças a serem bandidas.

Denominada posteriormente de a nona arte, dando continuidade a classificação das artes de Ricciotto Canudo é um reconhecimento patente de uma cultura de massas que se tornou um negocio lucrativo para vários segmentos de entretenimento e ensino. Já foi aplicada como método de aprendizagem em alguns países europeus e aqui mesmo no Brasil nos anos 70, tendo resultado em melhoria no aprendizado. O regime vigente na época, no entanto não deu prosseguimento por interesse doutrinário, no que foi seguido depois pelos seus sucessores. Na época em que surgiram as primeiras histórias nas tiras de jornais, já chamou a atenção do público que ainda estava se acostumando com a fotografia e o cinema. Os filmes eram mudos e os artistas tinham que se expressar de um modo teatral para que fossem entendidos, já que as legendas só apareciam quando eram absolutamente necessárias. Poder levar pra casa um personagem que quase fala, dentro de um jornal ou revista foi algo que de imediato atraiu público e com isso dinheiro aos editores. Os heróis de todas as formas começaram a preencher o imaginário popular e grandes escritores, roteiristas e desenhistas foram revelados por causa dessa arte. Astros de filmes e pessoas famosas na época, de repente viraram semideuses em histórias do faroeste.

No final dos anos 20, veio o cinema falado e quando se pensava que com a decadência de certos astros dos filmes mudos os comics desapareceriam, foi aí que começou o “bumm” e a chamada era de ouro, pois as revistas passaram a ter cores e até mesmo em jornais as pranchas dominicais eram de qualidade superior as tiras diárias. Grandes editoras surgiram, e no final dos anos 30 e começo da década de 40 fusões foram feitas, culminando com os impérios que são hoje Marvel (Disney) e DC (Time Warner), sem citar outras de relevância, mas de menor portfólio.

A imaginação e criatividade de escritores/roteiristas estariam no limbo da humanidade se não fosse a oportunidade e liberdade eu tiveram para criar seus personagens. O que seria de Edgar Rice Borroughs se sua principal criação, Tarzan, não tivesse ido para os quadrinhos? A mesma pergunta se faz a muitos outros e até mesmo a Stan Lee e sua turma de super-heróis. Já imaginaram o que seria de Mauricio de Souza e sua turma sem as tiras diárias no começo dos anos 60 e suas revistas em formatinho? Ao aparecer o primeiro balão narrando uma cena em um jornal qualquer, ninguém poderia imaginar no filão de ouro que estava surgindo e anos depois serviria de arma publicitária para ganhar guerras, derrubar ditaduras e salvar grandes conglomerados de falência.

Os escritores e desenhistas criadores de personagens das histórias em quadrinhos foram indiretamente responsáveis pelo surgimento de outras profissões dentro das editoras. A maioria dos escritores não desenha suas criações e muitas vezes a arte final é feita por um terceiro artista. Isso gera emprego, pois como arte deve-se sempre prezar pela qualidade da criação. As histórias em quadrinhos sempre geraram muitos lucros para as editoras. No inicio do século os estúdios de cinema cobravam para licenciar seus astros do faroeste para as tiras de jornais, mas quando ia para as revistas (comics) o lucro das editoras sempre foi grande.

No Brasil temos exemplo de como as histórias em quadrinhos elevaram o lucro de editoras como é o caso da Rio Gráfica Editora (Globo) que foi fundada depois que Adolfo Aizen, elevou a venda do jornal A Nação a níveis nunca imaginados com seu Suplemento Juvenil, depois de ter oferecido a Roberto Marinho a publicação e ser rejeitado, como já contamos em artigo anterior. Com a ascensão da RGE o Jornal A Nação foi perdendo espaço, já que o Suplemento Juvenil que no começo era vendido como encarte, passou a ser comercializado separadamente.

O Brasil revelou excelentes artistas de histórias em quadrinhos. Tanto nos roteiros como nos desenhos. A EBAL e Rio Gráfica utilizaram os serviços de vários profissionais para criar histórias de personagens de editoras norte-americanas, quando elas deixaram de ser publicadas por lá, e aqui o sucesso era garantido, como foram os casos do Cavaleiro Negro e Durango Kid, só para exemplificar. A entrada da Editora O Cruzeiro, de Assis Chateaubriand no mercado das histórias em quadrinhos, foi benéfica para os artistas nacionais, pois muitos personagens brasileiros foram criados para concorrer com os “gringos”, apesar dela de ter licença de três editoras norte-americanas para publicar histórias no Brasil, também queria agradar o governo populista de Getúlio Vargas. Vários heróis nacionais ficaram marcados na memória dos leitores. Alguns desses heróis terão artigo dedicado a eles brevemente. Nomes como o português Jayme Cortez, Edmundo Rodrigues, Péricles do Amaral, Moisés Weltman, Luiz Sá e mais recente Ziraldo Alves Pinto e Mauricio de Souza, devem ser sempre reverenciados como exemplo de criatividade e amor a arte de contar histórias em quadrinhos no Brasil.

Para aqueles que quiserem se aprofundar mais sobre os comics e como essa arte que supera o cinema e a televisão em número de leitores no planeta é um fenômeno de comunicação, recomendamos que leiam as obras dedicadas a nona arte do Professor Moacy Cirne, maior autoridade brasileira sobre história em quadrinhos, falecido em 2014 e responsável por levar os mesmos para as universidades.

Hoje, os heróis dos quadrinhos, quase que como uma retribuição ao que o cinema fez no começo do século XX, cedendo-lhe ídolos da tela para as tiras e revistas, estão salvando da falência, grandes estúdios com seus super-heróis, pois nenhum gênero de cinema, televisão e agora internet em sistema de streaming, gera mais lucro que os velhos super-heróis criados no século passado.

Djalma Vasconcelos

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